A mulher de 30 anos não era nascida no 25 de Abril de 74; não ouviu radionovelas e não vibrou com o Festival da Canção. A mulher de 30 anos tropeçou em dois séculos e está aqui! Também opina, ainda não é anciã e agora é mãe

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Terça-feira, 13 de Outubro de 2009

O único artífice da freguesia em que trabalho

Depois do reformado ferrador ter perecido, chama-se Inácio e é sapateiro. Usa um avental de couro e consegue equilibrar um cigarro na boca enquanto trabalha. Ah, valente!

 

Mas desabafo aqui que hoje fiquei chateada com este artesão de um ofício tão nobre, a quem encarrego, há muitos anos, de me dar novo alento ao calçado: 10 euros por duas solas (glup, perdão, "meias solas" - é meia sola quando não ocupa o pé todo)!!! Não tive direito de reclamar verbalmente, o senhor Inácio tinha o "ateliê" cheio de mulherio com botas nas mãos e depois de ter monopolizado a conversa que antecedeu a alta hospitalar das minhas botas mandou-me embora. Fiz as contas: o senhor Inácio e seu filho vão ficar ricos monetariamente porque de espírito já o devem ser: riem muito e ouvem a rádio palmela (que para quem não sabe é uma estopada contínua de pimbas+fado+pimbas+anos 80 em português popular) e estão sempre coradinhos (em parte o cheiro a cola diário deve dar umas deambulações psicotrópicas valentes). E depois falam dos sapatos que têm hospitalizados como se eles tivessem sentimentos. Exemplo:

 

- O que estas botas sofreram?! Parece que andaram à pancada (! com quem, pensava eu, com as sandálias que estão a seu lado no meu móvel, senhores?!), diz o senhor Inácio enquanto lhes dá um último toque com um pano encardido...

 

- Senhor Inácio, andaram mesmo, o meu gato afiou as unhas numa delas.

 

- Vê-se logo: olha-se para uma e para outra e sente-se a diferença (ele disse "sente-se", atenção, não foi "vê-se" ou "constata-se", não, ele "sente" a dor da minha bota)

 

- Pois, também por isso é que as deixei cá...

 

- Você não é a única: as pessoas hoje já não estimam o calçado... depois ergue as botas ao nível dos seus olhos (sempre com o cigarro ao canto da boca) e vaticina: ó muito me engano ou antes do Natal já cá estão outra vez!

 

Cheguei a casa e inspeccionei o trabalho, aquela última frase soava-me a meia sola mal colada de propósito, mas não, estão ali firmes e direitas. Não percebi: será que ele pensa que os meus pés tortos não são bons o suficiente para as minhas botas? Será que tem um grupo de defesa do calçado negligenciado? De qualquer modo é um homem que leva a sério a profissão: trata melhor as botas que alguns médicos os doentes.

 

São estes momentos de pura poesia popular o que me faz adorar o comércio local.

 

 

E pronto, consegui. Serei a única bloguer que hoje conseguiu não fazer um post sobre a pobre figura de si que uma actriz noveleira com aspirações a escritora fez num programa de mulheres galináceas noutro continente? Falta-lhes ali um Pedro Rolo Duarte (e eu que sou tão crítica ao modelo de programa que o dito jornalista modera... shame on me depois de ver o que vi).

 

Pronto, falo, falo, mas não me controlei.

 

publicado por amulherdetrintaanos às 20:24
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6 comentários:
De sonjita a 14 de Outubro de 2009 às 18:42
O comercio tradicional tem realmente uma essência que o restante não tem... e a pena é que a tendência é desaparecer!
Delirei com o teu retrato... e figurei o teu Sr. Inácio num ou outro personagem que volta e meia também me cai na rifa. Mas é bom ver que há estima e que ele trata os teus sapatinhos com carinho sempre que por lá pernoitam numa hospitalização de maior ou menor duração!

Quanto à atriz com aspiração a escritora... e a comediante... bem, não comento!

BJKa
De amulherdetrintaanos a 20 de Outubro de 2009 às 22:27
Tens razão: é um encanto bucólico que dá sentido a espaços urbanos muitas vezes impessoais. Hei-de apresentar qq dia a D. Joaquina, conhecidatalhante com dotes repentistas... Um beijinho
De clara a 16 de Outubro de 2009 às 14:22
Gostei muito mais deste post (que me roubou um sorriso nostálgico) do que um post (mais um!!) sobre uma pessoa que já foi célebre (há muito tempo atrás).

Beijinhos
De amulherdetrintaanos a 20 de Outubro de 2009 às 22:30
Nem imagina o senhor Inácio o sucesso que fez! O mais genuíno nestas pessoas é que não precisam de artíficios nem fazem questão de se colocar em biquinhos de pé. Beijinho!
De a 16 de Outubro de 2009 às 19:31
10 EUROS POR 1/2s SOLAS? COM UM POUCOS MAIS COMPRAVAS UNS SAPATOS NOVOS NOS CHINAS, SEM DESPRIMOR, SÓ QUE A MIM JÁ ACONTECEU, PASSADO UM UM MÊS, UNS DOS SAPATOS PARTIU A SOLA, DE BORRACHA, AO MEIO. NÃO TINHA CONSERTO, OU SERÁ CONCERTO? EM COMTRAPARTIDA TENHO OUTROS Á MAIS DE 3 ANOS E ESTÃO PARA DURAR. MAS É PENA QUE OS ARTÍFICES ESTEJAM A ACABAR, ATÉ OS RELOJOEIROS. FAZEM FALTA. CÁ POR MIM, O SR. INÁCIO JÁ É RICO. BJS
De amulherdetrintaanos a 20 de Outubro de 2009 às 22:33
Nem me fales nos relojoeiros! Os que conhecia realmente já encerraram o estabelecimento: pensando bem, mea culpa também, como o único relógio que tenho é um Swatch, só preciso de mudar a pilha e como é apanágio da marca quando falhar, Kaput, é de vez! Mundo descartável este em que habitamos...

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