A mulher de 30 anos não era nascida no 25 de Abril de 74; não ouviu radionovelas e não vibrou com o Festival da Canção. A mulher de 30 anos tropeçou em dois séculos e está aqui! Também opina, ainda não é anciã e agora é mãe

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Boa noite,Como a entendo.Uma coisa é fazer o "que ...
É tão giro encontrarmos desenhos antigos, retratam...
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Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Pronto, fui só ali e já voltei

Quase um mês afastada das minhas actividades blogueiras regresso feliz e contente, imbuída de espiríto natalício, com a pele seca de tanto corropio pré ritualesco por entre lojas de ares condicionados tropicais e espaço público frio como o verão siberiano, munida de novas energias e com toda a panóplia de tarefas laborais escravizantes terminadas que me afastaram do meu tempo lento blogueiro, entre outras actividades divertidas que me revitalizam e alegram porque confesso... eu não vivo para trabalhar e eu gosto é de ócio (e mantas polares e moscatel...) e de flanar por aí a fazer aquilo que me der na tola...

 

E para recomeçar compartilho convosco esta pérola de sabedoria que se chama senso comum, essa atitude sábia, essa postura existencialista, esse questionar pré socrático latente nos anciãos que por aí andam livremente na sua vidinha de reformados mal pagos; daqueles que a gente ainda consegue ouvir e ver, daqueles que andam de transportes públicos e a pé, seja porque não estão fechados em casa ou amontoados em lares com nomes esquisitos e contraditórios (tipo, "sempre jovens"ou "o nosso cantinho"), seja porque a idade já não lhes permite circular automobilisticamente...

 

E perguntam vocês: velhinhos em transporte público? Sim, sim. E eu ia lá também, num autocarro atulhadinho que me fez arrepender de entrar logo ao trespassar a porta, ensaduichada entre um dread e uma pseudo tia e a levar com o cotovelo de um senhor encasacado que fazia lembrar aquele bonequinho do south park.

 

Então, recapitulando, ia eu e mais metade da população da minha terra metidos num autocarro lagarta que parou à porta de uma igreja da pós modernidade... o centro comercial da terra. Eu tinha o carro no estacionamento do dito, mas quando me vinha embora, a longa fila engarrafada para de lá sair, fez-me dar meia volta e apanhar um bus. Como moro a três paragens do mega santuário, tinha um módulo e pouca gasolina tive essa brilhante ideia de usar o estacionamento público, como privado e lá me enfiei no autocarro a pensar que lá para as nove da noite podia ir calmamente resgatar o meu veículo.

 

E então, no meio da confusão, entre o dread e a tia, iam sentados dois velhinhos. Ele com sacos do jumbo, ela com um guarda chuva; ele de boina, ela de lenço. O diálogo, se escrito por um argumentista polaco, não poderia ser mais surrealista, ele afirmava uma coisa, ela constatava outra ao lado, mas eis que, de repente, aquelas duas almas são unidas pela ideia determinista de destino, passam para o livre arbítrio e ainda afagam a ideia de liberdade tão cara a Leibniz . Eu estava que não podia, ainda pensei ligar dali para a tvi e propor-lhes aquela dupla maravilha em substituição do pulido valente, mas não queria interromper a conversa. Aqui fica a conclusão que eu registei mal sai no meu caderninho de bolso, porque valia a pena e se os cadernos de bolso não servem para isto, não sei para que mais hão-de servir. Com laivos de peça do Brecht, antes de eu, lamentavelmente, ter de sair na minha paragem eis o que foi dito:

 

Ele- anda toda a gente a correr, uns para um lado, outros para outro. Mas eles não sabem que não é a gente que manda no tempo, o tempo é que manda em nós...

 

Ela- pensam que estão a fazer aquilo que querem, mas andamos todos é a fazer o precisamos...

 

 

Ele- não vale a pena correr, quanto mais se corre, mais parados estamos...

 

Ela- a gente pensa que não, mas o homem põe e Deus dispõe...

 

 

Ele (e com razão e acho que eu, o dred e a tia)- o homem põe e Deus dispõe.

 

E sai do autocarro estupefacta com o eco do "o homem põe e Deus dispõe".

 

 

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publicado por amulherdetrintaanos às 18:02
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11 comentários:
De jeune fille aux cheveux blancs a 8 de Dezembro de 2008 às 19:47
e o facto do post ter como tag "psicologia" ainda é melhor :)

beijinhos.
De amulherdetrintaanos a 13 de Dezembro de 2008 às 18:05
"filosofia", "psicologia", "epistemologia", "poesia"... cada vez mais me convenço que vai tudo dar ao mesmo :) Bj
De sonjita a 8 de Dezembro de 2008 às 21:53
Ehhhh, que maravilha.... às vezes também assisto a alguns diálogos que se escritos davam um belo argumento... a maior parte deles é "o mundo está perdido", "agora elas estão piores que eles"... bem, a abominação é emancipação feminina!!!

BJOka
De amulherdetrintaanos a 13 de Dezembro de 2008 às 18:07
"A abominação é a emancipação feminina"- espectáculo, isso é que é construir um novo paradigma. As ciências sociais teceriam os maiores ensaios sobre essa constatação de aplicação universal :):) sim senhora...
De clara a 9 de Dezembro de 2008 às 14:24
Surreal! Às vezes, ouvimos cada discursos das pessoas mais improváveis que nos deixa completamente estupefactas!


Belo regresso! Já estava com saudades ;-)
De amulherdetrintaanos a 13 de Dezembro de 2008 às 18:11
Também eu já estava com saudades... vossas e minhas. É que o meu "eu" blogueiro já faz parte de mim e passear na blogosfera é um exercício muito relaxante e divertido para a minha pessoa... então se aprendemos mais coisas, como com o teu, fica-se mesmo com saudades!!! Bjoca
De Miss M a 9 de Dezembro de 2008 às 16:49
Também já estava com saudades destes teus posts.
E já agora aproveito para dizer que os transportes públicos são um optimo local para pensar na vida, filosofar e até, com sorte, escutar estes diálogos de ouro...
De amulherdetrintaanos a 13 de Dezembro de 2008 às 18:13
Fogo pá! vocês são mesmo muito simpáticas... "diálogos de ouro"... estou corada mas com um grande smile a responder-te. Obrigada, vale a pena voltar para vos visitar ´principalmente. Beijoca amiga blogueira!
De * * Grilinha * * a 11 de Dezembro de 2008 às 19:16
Desde que parti o braço ainda não voltei a conduzir e volta e meia penso que os autocarros andam vazios e lá me decido a andar no 755 entre Alvalade e a Bela Vista.

Arrependi-me sempre de todas as vezes que o faço pois acabo por vir de pé e cheia de medo de deslocar o braço e o ombro ainda empanados mas valeu sempre a pena pelo que aprendi

São cenas iguais ás que descreveste. será que andamos no mesmo BUS???

Há dias era um casal (marido e mulher) de idade.
Ela - se está frio doem-me os ossos se está calor doem-me na mesma
Ele - pois
Ela - Nem os medicamentos me fazem efeito
Ele - pois
Ela - (em tom irritado) SÓ SABES DIZER "POIS"?
Ele - (a medo) e baixinho ... pois
De amulherdetrintaanos a 13 de Dezembro de 2008 às 18:17
Essa também é boa!!! Gosto especialmente do facto "dela" ser assim tão directa: as mulheres objectivas e os homens lacónicos são sempre uma dupla imparável!!! Devíamos juntar estes pequeninos diálogos e fazer uma peçita de teatro , não? Ou um livrito de contos a partir dessas tiradas de sabedoria popular!!! Opá, vai na volta andamos no mesmo autocarro (entre a tia e o dread) e não sabemos! He, he,he... Bjinho e as melhoras!
De * * Grilinha * * a 16 de Dezembro de 2008 às 01:09
Tenho aprendido muito nestes últimos meses em que voltei a frequentes os autocarros e Metro.

Daria um Best Seller

Boas Festas

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